Meu testamento fugiria aos padrões, creio.
Quer dizer, não que eu tenha pesquisado testamentos por aí; falo dos típicos, aqueles que justificam bens a familiares e amigos, e também pedidos, para que as pessoas realizassem aquilo que não deu tempo de ser feito. Tipo o trabalho pra faculdade, pro dia seguinte (mas valendo menos nota), mas não exatamente daquele jeito.
Posso fazer uma prévia?
Ok, posso.
Acho que começaria com um pedido bem simples. "Não chorem". Tá, é um negócio meio inevitável, meio impossível de se cumprir. Choro é um negócio engraçado. Mas mesmo assim eu pediria isso. Tipo, "esta é minha última morte. Deviam ter chorado enquanto eu morria em vida". Aquela vez em que eu me decepcionei. Aquela vez em que me caiu o mundo por causa de uma guria. Aquela vez em que eu não parecia mais capaz de sonhar. Por quê não choramos nessas horas, se morremos um pouco em todas? E estou sendo modesto, acreditem. Jamais morri pouco, e duvido que os outros o tenham feito. A gente morre, e morre muito. Perde um bifão da vida e nem percebe, deixa passar. Por um lado é uma maravilha, a relevância, mas por outro é até cruel - a ignorância. Não ignorem as mortes. A partir de agora, valorizem-nas; e a morte final não parecerá tão cruel. Lembrem-se que não se sabe o que há depois. "Quando se mata um homem, não se sabe nem o que está lhe tirando, nem o que está lhe dando", e isso é Byron e isso parece-me verdade. Então não chorem a morte. Chorem a ausência que se seguirá, o vazio que deixarei. É o que dói, na real, não é? Então ok, aí podem chorar. Mas não no velório. Preencham o velório (preferencialmente em minha futura casa) com as lembranças legais, e festejem a passagem. Festejem, pois onde eu estiver, estarei preparando o lugar a todos vocês, e nem por isso terei ido embora. Voltarei para onde vim, e isso significa que estarei sempre aqui, como cidadão universal que faz parte de cada partícula da Terra que habitamos. Concepção surreal, mas tá aí pra ser festejada. Bebam (sem vomitar no cadáver), toquem músicas. Preparo até uma lista. Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd, Yes, e as músicas que se tocam em fogueiras. Façam barulho. Deixem que o vizinho toque à porta; vocês abrirão, e ele dirá: "Que festa é essa? Façam menos barulho! Onde está o José Eduardo?", e, por favor, quero boas respostas. Tipo "Ele está ali no centro, pode ir falar com ele", ou "Opa, ele morreu. Este é seu funeral. =D". Brindem. Brindem com o vizinho. Lembrem de todas as cagadas que fiz em vida. Editem minhas poesias, lancem livros e doem a renda a algum centro maroto de assistência social. Falem mal de mim. Reúnam as namoradas e acabem com a minha honra. É isso que fazem com os mortos.
Mas usem tambores, violinos, violões, bandolins; flautas transversais. Cavaquinhos, pandeiros e faixas amarelas. Exatamente, sem choro nem vela. Sem crisântemos, cravos ou quaisquer outras. Perfumem a casa com insensos e disponham orquídeas, angélicas, jasmines e lírios do campo pela casa. Festejem. Dancem valsas.
Em memória a mim, senhoras e senhores, festejem.
Em memória à minha inabilidade com a escrita.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
terça-feira, 1 de abril de 2008
Da Casa de Anil
Montes exatos, mas duplos, errados
foram a base porque você quis.
Tão metódicos eram os gramados,
duvidavam - fariam-lhe feliz?
Eram nas nuvens, então, refletidos
E era o ar, então, densificado
Pois em dúvida estava envolvido:
chovia do chão, chovia do alto.
Mas mesmo assim o lugar foi regado
E ali no topo, tudo planejado,
E o quanto antes pôs-se a construir.
E mesmo em meio aos ventos gelados
Ali nos morros ergueu seu reinado
Com uma casa feita de Anil.
~ ~ ~
Quase dois meses sem postagens, hm? Considerando que sou o único a ler e escrever aqui, não fez falta. Esta é, portanto, uma conversa justificativa que estou a ter comigo mesmo.
A ausência aqui criou-se pela convicção de que a comunicação andava falha e a expressão intencionada inexistia. A volta deu-se pela convicção de que eu não receberia essas habilidades de um dia pro outro: deveria haver treino.
Pois bem, há novamente.
Começo esta fase com Da Casa de Anil, que trata do começo de outra fase. Os Sonetos da Casa de Anil só têm fim quando aqui admitir-se a conclusão da dita fase.
E é só.
Aguardem, portanto, mais sonetos (sem sono).
Abraços.
foram a base porque você quis.
Tão metódicos eram os gramados,
duvidavam - fariam-lhe feliz?
Eram nas nuvens, então, refletidos
E era o ar, então, densificado
Pois em dúvida estava envolvido:
chovia do chão, chovia do alto.
Mas mesmo assim o lugar foi regado
E ali no topo, tudo planejado,
E o quanto antes pôs-se a construir.
E mesmo em meio aos ventos gelados
Ali nos morros ergueu seu reinado
Com uma casa feita de Anil.
Zé Eduardo Martin Roquetti
~ ~ ~
Quase dois meses sem postagens, hm? Considerando que sou o único a ler e escrever aqui, não fez falta. Esta é, portanto, uma conversa justificativa que estou a ter comigo mesmo.
A ausência aqui criou-se pela convicção de que a comunicação andava falha e a expressão intencionada inexistia. A volta deu-se pela convicção de que eu não receberia essas habilidades de um dia pro outro: deveria haver treino.
Pois bem, há novamente.
Começo esta fase com Da Casa de Anil, que trata do começo de outra fase. Os Sonetos da Casa de Anil só têm fim quando aqui admitir-se a conclusão da dita fase.
E é só.
Aguardem, portanto, mais sonetos (sem sono).
Abraços.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
17º filha da puta perdedor
Eu não estava em casa, pra começo de conversa. Estava alojado na casa dos meus primos por pouco, mas não sei quanto, tempo. De qualquer maneira saí me sentindo um filha da puta. Peguei carona até o metrô com o primo que dirigia e acompanhei sua namorada até que nossas necessidades nos fizessem tomar rumos diferentes, trens diferentes. Acho que eu fui pro Norte e ela foi pro Sul. Não faz diferença.
Era dia da Parada Gay. E lá estava eu, no metrô, dirigindo-me ao que eu acreditava ser o fim de algo. E o metrô dá acesso a uns quatro ou cinco cantos da cidade, então estava, como sempre, cheio de gente. Mas era dia da Parada Gay. E digo uma coisa, se quer algum dia observar coisas e pessoas novas, mas só quer um pouco e sem muita interação, ande de metrô em dia de Parada Gay. É definitivamente diferente; uma pequena faceta, mas é.
E lá estava eu, indo de metrô ao terminal rodoviário, com a minha cara de filha da puta perdedor. Essa cara é aquela que a gente faz quando pensa "É... poizé. Fazer o quê." e suspira que nem um paspalho. Cara de perdedor. O engraçado é que esses dias anuviados (sem trocadilhos aqui) têm essa denominação por um motivo maroto: não se consegue analisar com clareza as situações, portanto, a verdade é vista nublada e turva. E naquele dia eu me sentia um filha da puta perdedor. E pensando hoje, com a tal clareza, eu era mesmo um filha da puta perdedor. A única diferença é que agora eu sei mais um pouco das coisas e sei muito menos de tudo.
E, engraçado, nesses dias você olha pra todas as pessoas com uma esperança maior. Você pensa em coisas que te consolam, tipo "veja a parte boa, você é um filha da puta solteiro, agora", e toda mocinha elegante e de aspecto inteligente te chama atenção e te parece um alguém legal pra chegar e assoprar as tempestades que te assolam. Mas não é assim que funciona.
Sério, você vai lá no guichê da companhia rodoviária e diz que quer devolver a passagem. "Oi, gostaria de fazer uma devolução", e fica sorrindo que nem um filha da puta perdedor, esperando a atendente olhar pro teu rosto e perguntar "Nossa, por quê?" e você contar como foram seus últimos seis meses, como você arrecadou uma grana, como você comprou uma passagem pra ir atrás de uma guria, como tudo acabou, como você foi babaca e como você veio devolver a passagem. Claro, sem esquecer de mencionar o modo como você se sentia um filha da puta perdedor. Sempre. Mas, putz, todo mundo sabe que isso só acontece em filmes. E nos filmes o cara joga futebol americano, tem uma grana legal e está numa universidade do governo, e só quer trocar as passagens por mero esporte e a atendente é uma estagiária da mesma idade, elegante e com ar intelectual, e não uma mulher com o dobro da sua idade e um anel de noivado na mão. Cena digna de um cara que está longe de um filha da puta perdedor.
Longe, bem longe de mim.
Porque no fim você pegou a grana de volta (com 5% descontado, um absurdo), e você percebe que a grana não vale nada, na real. Suspira que nem um filha da puta perdedor e faz o caminho pra casa, observando as mulditões homossexuais, bissexuais, transsexuais, simpatizantes e afins, pegando a condução junto de monocelhas, comunistas, vadios, universitários, atendentes e filhas da puta perdedores.
Eles tomam o controle das estações e enchem uma das avenidas mais importantes da cidade, pois é o dia deles. Mas o glitter em excesso tira todo o brilho do seu dia de filha da puta perdedor e, portanto, você acha necessário perpetuar o dia pelas próximas semanas, e responde tal qual o filha da puta perdedor que é:
"Ah, acabou."
"Devolvi, né."
"É. Fazer o quê." (suspira)
[...]
"Filha da puta."
Até que o Carnaval chega ao fim e você chega a claras conclusões, juntando ontem e hoje.
E só diz "Dezessete anos. Grande merda", porque não faz diferença, mesmo.
Gastou a grana com sexo, drogas e rock'n roll, da maneira que um perdedor filha da puta faria; o sexo não era de verdade, as drogas não eram ilícitas (sequer previstas pelo Ministério da Saúde) e só comprou material cagado do bom e velho rock'n roll.
Deixa uma porrada de pessoas pra trás. Fecha os olhos que nem um... bem, você sabe o quê.
Guri de dezessete anos. Falta um passo pra você ser finalmente reconhecido como alguém responsável pelos próprios atos.
O tempo de filha da puta perdedor acabou.
Era dia da Parada Gay. E lá estava eu, no metrô, dirigindo-me ao que eu acreditava ser o fim de algo. E o metrô dá acesso a uns quatro ou cinco cantos da cidade, então estava, como sempre, cheio de gente. Mas era dia da Parada Gay. E digo uma coisa, se quer algum dia observar coisas e pessoas novas, mas só quer um pouco e sem muita interação, ande de metrô em dia de Parada Gay. É definitivamente diferente; uma pequena faceta, mas é.
E lá estava eu, indo de metrô ao terminal rodoviário, com a minha cara de filha da puta perdedor. Essa cara é aquela que a gente faz quando pensa "É... poizé. Fazer o quê." e suspira que nem um paspalho. Cara de perdedor. O engraçado é que esses dias anuviados (sem trocadilhos aqui) têm essa denominação por um motivo maroto: não se consegue analisar com clareza as situações, portanto, a verdade é vista nublada e turva. E naquele dia eu me sentia um filha da puta perdedor. E pensando hoje, com a tal clareza, eu era mesmo um filha da puta perdedor. A única diferença é que agora eu sei mais um pouco das coisas e sei muito menos de tudo.
E, engraçado, nesses dias você olha pra todas as pessoas com uma esperança maior. Você pensa em coisas que te consolam, tipo "veja a parte boa, você é um filha da puta solteiro, agora", e toda mocinha elegante e de aspecto inteligente te chama atenção e te parece um alguém legal pra chegar e assoprar as tempestades que te assolam. Mas não é assim que funciona.
Sério, você vai lá no guichê da companhia rodoviária e diz que quer devolver a passagem. "Oi, gostaria de fazer uma devolução", e fica sorrindo que nem um filha da puta perdedor, esperando a atendente olhar pro teu rosto e perguntar "Nossa, por quê?" e você contar como foram seus últimos seis meses, como você arrecadou uma grana, como você comprou uma passagem pra ir atrás de uma guria, como tudo acabou, como você foi babaca e como você veio devolver a passagem. Claro, sem esquecer de mencionar o modo como você se sentia um filha da puta perdedor. Sempre. Mas, putz, todo mundo sabe que isso só acontece em filmes. E nos filmes o cara joga futebol americano, tem uma grana legal e está numa universidade do governo, e só quer trocar as passagens por mero esporte e a atendente é uma estagiária da mesma idade, elegante e com ar intelectual, e não uma mulher com o dobro da sua idade e um anel de noivado na mão. Cena digna de um cara que está longe de um filha da puta perdedor.
Longe, bem longe de mim.
Porque no fim você pegou a grana de volta (com 5% descontado, um absurdo), e você percebe que a grana não vale nada, na real. Suspira que nem um filha da puta perdedor e faz o caminho pra casa, observando as mulditões homossexuais, bissexuais, transsexuais, simpatizantes e afins, pegando a condução junto de monocelhas, comunistas, vadios, universitários, atendentes e filhas da puta perdedores.
Eles tomam o controle das estações e enchem uma das avenidas mais importantes da cidade, pois é o dia deles. Mas o glitter em excesso tira todo o brilho do seu dia de filha da puta perdedor e, portanto, você acha necessário perpetuar o dia pelas próximas semanas, e responde tal qual o filha da puta perdedor que é:
"Ah, acabou."
"Devolvi, né."
"É. Fazer o quê." (suspira)
[...]
"Filha da puta."
Até que o Carnaval chega ao fim e você chega a claras conclusões, juntando ontem e hoje.
E só diz "Dezessete anos. Grande merda", porque não faz diferença, mesmo.
Gastou a grana com sexo, drogas e rock'n roll, da maneira que um perdedor filha da puta faria; o sexo não era de verdade, as drogas não eram ilícitas (sequer previstas pelo Ministério da Saúde) e só comprou material cagado do bom e velho rock'n roll.
Deixa uma porrada de pessoas pra trás. Fecha os olhos que nem um... bem, você sabe o quê.
Guri de dezessete anos. Falta um passo pra você ser finalmente reconhecido como alguém responsável pelos próprios atos.
O tempo de filha da puta perdedor acabou.
epitaph:
crônicas
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