Mostrando postagens com marcador devaneios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador devaneios. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Num sonho estavam as bruxas
verdes
que os homens chamam de Lua não sei porque.
Cobriam paredes, pilastras
e a porta
tudo uma imensa tapeçaria
veludo verde claro e mil olhos
que voaram quando chegamos perto
e nos afogaram.

Num sonho um mar estranho
híbrido de trevos e asas verdes
que chamamos de mar com a certeza de náufragos
pesava-nos tudo.
Em três folhas dum trevo comum
contavam-se nossas palavras
mar de pétalas soltas
e de antenas de camurça arrancadas
e de homens quebrados.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

pensamentos (nem tão) soltos

nenhum acorrentado é capaz de aceitar tranquilamente a liberdade do outro.
ninguém que vive numa gaiola é capaz de apreciar a liberdade do outro sem invejá-lo.

domingo, 14 de novembro de 2010

despedida

seu cheiro no meu casaco,
seu telefone no meu bolso,
por que você não está neste elevador?

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

todos fazemos.

e esta noite você está no meu chá.
eu, cansado pra tentar fazer algo bonito, novo ou poderoso.
eu, querendo desabafar porque seu cheiro sobe da xícara em formato de vapor.

achei que alguma mágica ia acontecer quando eu despejasse a água fervente no copo. no fundo do vidro, partes das suas folhas secas; a coloração variava mas todo resto seu era pálido e escondia um reflexo lilás muito distante, mas ainda presente. lilás em tons de lembrança, só, que tudo era mais ou menos cinza.
lembro do mate tostado. desce da chaleira o torrente fervido e as folhas marrons sobem, descem e submergem num pequeno pandemônio aquático sob meu controle; antes mesmo do copo encher e acabar a derrama, a água já está toda manchada e escura da erva mate.
não aconteceu com você.
queria vê-la tingindo a água quente de violeta, e um violeta que perdurasse até o último gole. não houve mágica e a água mal mudou de cor quando mergulhou seus restos cinzentos.

ao fim de cinco minutos de infusão estava lá um líquido ralo e numa cor talvez até mais clara que os chás de erva-doce. coado, transposto à xícara - seu cheiro impossível de negar.
diabos. o chá mais gostoso de todos, também o mais dolorido.

a mentira: o cheiro e gosto me lembram do que aconteceu.
a verdade: a verdade é que a menor menção já me remete ao que eu (não) fiz. o resto é tortura. o resto é masoquismo.

chega em casa o pacote manufaturado e vendido em atacado com suas flores secas e prontas para infusão - seu nome, "lavanda", impresso numa etiqueta; seu outro nome, "alfazema", gravado na memória e preso a associações diretas.
e você não chegou sequer a dar flores. enxergo você no pacote ainda assim - ali está um futuro seu que nunca vamos alcançar, as flores cinzas e secas e prontas para infusão, a promessa de um perfume, a imagem das manchas lilases sob a janela, sobre uma varanda. o cheiro e gosto que vêm depois me lembram sim da época em que você era verde (e não cinza) e passar a mão pelas suas folhas deixava meus dedos cheios de uma graça sem remédio, que não saía fácil.

a metáfora:

deus, permita que eu me perdoe por ter arruinado seus menores sonhos.
é uma súplica.
você queria ser verde e lilás, e eu lhe fiz cinza.
porque todos esquecem de regar as plantas e eu me comportei como um qualquer.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

o que é, o que é?

só cresce, como o escuro cresce num céu de tarde e engole o mundo todo dia, mas cresce infinitas vezes mais rápido que o anoitecer.
cresce como um monstro, abraça mais largo e assombra mais perto que o anoitecer.

e apenas cresce.
surge de dentro, acima da barriga, debaixo do peito.
faz mais nada além de existir.
é grande mas nunca ultrapassa sua pele.

sua existência perturba.
sua existência não se explica.
sua existência não se resolve.

espera-se que vá embora.
e só.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

o delírio

A moça morena agora mistura seus dedos com os seus cabelos úmidos, revolve- lhe as ideias com movimentos suaves. Ele pega-lhe no braço, desfia seus dedos por aqueles dedos finos. A palma é macia. Junto da unha um pouco áspero. Encosta a boca no seu dorso e vai passando-a por todos os caminhos, minuciosamente, os olhos muito abertos na escuridão. A mão procura fugir. Ele a retém. Ela fica. O pulso. Fino e tenro, faz tic-tic-tic. É uma pombinha que ele aprisionou. A pombinha está assustada e seu coração faz tic-tic-tic.
- Este é um momento? Pergunta em voz bem alta. Não, já não é mais. E este? Já agora também não. Só se tem o momento que vem. O presente já é passado. Estire os cadáveres dos momentos mortos em cima da cama. Cubra-os com um lençol alvo, ponha-os num caixão de menino. Eles morreram crianças ainda, sem pecado. Eu quero momentos adultos!... Moça, aproxime-se, eu quero lhe confiar um segredo: moça, que é que eu faço? Me ajude, que minha terra está murchando... Depois o que vai ser de minha luz?
O quarto está tão escuro. Onde a Virgem-Mãe que a tia meteu-lhe na mala, antes da partida? Onde está? Sente a princípio alguma coisa movendo-se junto dele. Então na sua boca enxuta dois lábios frescos pousam de leve, depois com mais firmeza. Agora seus olhos já não queimam. Agora suas têmporas deixam de latejar porque duas borboletas úmidas pairam sobre elas. Voam em seguida.
Ele se sente bem, com muito, muito sono...
- Moça...
Adormece.



de O Delírio (A Bela e a Fera, 1941)
Clarice

sexta-feira, 4 de junho de 2010

dos sonhos

levo-te, lavanda
vaso novo, terra nova
sombra da varanda.


fevereiro, 2010.


 konna yume wo mita...

sábado, 29 de maio de 2010

o pior.

e a internet ainda é o pior paradoxo de todos.















o pior.


tem essa forma de não-dormir. não durmo, e não durmo faz tanto tempo que até dói admitir.
parece que a única coisa que resta não é dormir, mas desistir dos dias.

dormir e desistir são coisas tão parecidas que quase ninguém percebe a diferença.

sábado, 15 de maio de 2010

cadafalso

cada passo que eu tenho dado

pensando em ir pra frente

não me levam para frente

mas pra longe.

sábado, 8 de maio de 2010

só um ônibus. só.

Entre linhas.
Fim do Caderno.
Letra desequilibrada.
Espia-se por sobre o ombro.
De canto dos olhos.
Como eu também faria.
Não.
Não estou bêbado.
Minha letra não é feia.
Não estou triste.
Nem choro.
Só estou num ônibus.


Não preciso, aliás, estar bêbado para fazer o que for.
Faço sóbrio.
E só.

Destruir-se ébrio.
Com o álcool destruir-se, aliás.
Não - é tampouco necessário.
Dia vai, dia vem, e destruo-me sozinho nos decorreres.
Sóbrio.
Faço sóbrio também.
E só.

Talvez haja valor no fiasco afogado no copo.
Talvez não doa tanto.
Talvez não doa.


quando foi isso?
março de 2010, acho.

sábado, 24 de abril de 2010

grandessina

é ter vontade de chorar quando só é necessário dormir.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

escuro.

talvez não haja certo nem errado.
existe o escuro que precede a escolha
existe a escolha
e existe o escuro seguinte.

sábado, 31 de outubro de 2009

obstrução

muito perto do último dia do mês, no último dia da semana, nas últimas horas do dia, numa das últimas estações da linha vermelha do metrô de são paulo (sentido barra funda, claro), houve quem talvez tenha dado seu último suspiro diante da aproximação do trem e de repente pulado.
fodeu, porque morreu na contramão atrapalhando o tráfego, mesmo, sem tirar nem pôr.

se tentou morrer, espero que tenha conseguido.
senão... bem, acho que morreu de qualquer jeito.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

teomania

"Não é megalomania", e essa frase tem surgido na minha mente com frequência nos últimos dias.
Basta sentar e precisar de uma distração, ou eventualmente ser atingido pela urgência em pensar no assunto que torno a negar, sempre em silêncio e sempre imerso no caos mental e no complexo de leigo, o que impede a idéia de evoluir.

De considerações a serem feitas antes do assunto ser introduzido de fato, existem ao menos duas: (1) megalomania se caracteriza pela ilusão da grandeza, do poder, logo (2) não sei se já a experienciei ou se ainda a experiencio.
Para todos os fins, o sentimento servido pelo texto não deve ser confundido com uma possível megalomania.

Fim das contas, não é megalomania.


... e no fim real das contas, é megalomania.
Uma forma extrema, aparentemente. Enquanto escreve o texto o autor dá um chute às cegas numa busca no Google e lá estava o termo: "teomania" - a ilusão patológica de ser um deus.
É megalomania.
É teomania.

É como se deus tivesse revelado todo o mistério e continuar esse texto tivesse perdido a graça.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

passei

só pra dizer que toda genialidade tem um quê de limite.

domingo, 13 de setembro de 2009

são

Um dia, Loucura, tu me encontraste.
Era noite chuvosa e eu jazia largado em uma poltrona; meus pais eram mortos e me lembrava deles à luz de velas.
Quando te aproximaste e me tomaste o braço com teu punho firme e tuas garras longas, sussurraste em meus ouvidos. "Eu sou a Loucura; eu sou tua ruína". Assim abriste teu manto difuso e toda luz de vela se apagou, enquanto eu afundava contigo e vislumbrava que tudo de fato ruía: amigos, amantes e empregados davam-me as costas; faces estranhas nos espelhos; via meu cérebro, minha cabeça estava aberta, minha mente estava exposta; havia uma mordaça em minha fuça!
"É mentira!", eu tentava gritar; "É mentira!"
Mas minha mordaça, Loucura, eram na verdade rédeas. E quando dei-me conta disso arranquei tua máscara e agarrei teu rosto para sussurrar-te de volta: "Não és ruína: és libertação".

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

sr. presidente do senado

hoje a câmara dos senadores se localizava na minha antiga escola e o povo participaria de uma sessão. todos discursavam com indignação, inclusive minha mãe, e a maioria era interrompida durante suas falas, devido ao ego grotesco dos excelentíssimos senhores. na minha vez de falar fui interrompido por ninguém mais, ninguém menos que o senhor josé sarney, que durante sua oratória exaltada empurrou minha mãe. quem se exaltou fui eu, e levantei inflando o peito e batendo na mesinha pra alertar que o senhor presidente não tocasse em minha mãe. acuei o velho sarney, menor que eu, e ninguém impediu. ele reagiu tampouco, então pulei em cima dele e passei a agredi-lo das maneiras que primeiro viessem em minha cabeça.

ninguém impediu; ele ainda não reagia.
mas como era meu sonho, todo golpe que eu dava era motivo para cócegas...
sou fraco, nos sonhos.

apesar da fraqueza, machuquei o rosto velho do excelentíssimo idiota. saímos todos da câmara, e, enquanto me dirigia à saída da escola, contava minha façanha a quem eu conhecesse: "desci o sarrafo no sarney", "soquei o sarney"; e tinha amigos de todas as bandas, e todos gostavam de saber. fim das contas minha irmã veio avisar-me que haviam feito uma denúncia contra nós; acordei antes de saber por quanto tempo ficaria preso por ter concretizado a coisa que pulula no imaginário de todo povo.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

mais do mesmo

era um texto grande cunhado em lamento. mas me irritei.
sempre liguei pro caráter artístico dos meu textos mesmo aqui no blog, mas dá em nada, dá? coletassem todos os bons, e teria-se um conjunto de chorumelas curtas, subjetivas, desinteressantes; não arte. mesmo porque nunca soube estar informado, inteiro, conciso num movimento para produzir alguma arte dele. tenho hoje um projeto maior, mas longe da prática, ainda...

parte da madrugada irritei-me preenchendo currículos.

no começo da manhã tentei criar algumas metáforas: pintei a felicidade como um prédio em uso constante, e a insatisfação como um monumento inútil que você enxerga de qualquer ponto da cidade. destruir o prédio útil, tudo bem - pode-se construir outro em alguns meses; destruir o monumento escroto, jamais - que importa se se sofre com sua beleza de mármore? é moderno se machucar assim. esse ponto quero desenvolver mais, tenho a impressão de enxergar mil mentiras que absorvi durante a infância:
(1) os bons sentimentos não são fortes como sempre pareciam ser - são apenas bons, e precisam de uso constante para sua manutenção.
(2) os sentimentos fortes são tão bons apenas enquanto à distância - quando se tornam reais, são apenas bons.
(3) os sentimentos ruins viciam.
amor mesmo é uma construção cuja importância só será sentida a longo prazo. apaixonar-se por estrelas é uma idiotice. alcançá-las queima.

mas tive, en parejas, uma metáfora boa que vou guardar na geladeira, já que tratava de manjares, de passas. é justo.

quero dizer mais nada. não quero ser mais óbvio nem mais direto. quero continuar ingrato, covarde e ignorante para com os monstros que me fazem ser um deles.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

quiescência.

mesmo as palavras têm seu corpo e a pronúncia faz delas flechas concretas que, ao alvo ou a esmo, deterioram-se jamais. o tempo talvez as apague por falta de uso, mas fazendo jus às pontas de porcelana que têm, a ferida nunca sara e some jamais. em tempo, a decisão um pouco meditada é de quebrá-las todas flechas, que são armas de verdade e não abstratas como se costuma imaginar num desses surtos de ingenuidade e alienação.
a identidade está na abstração dessa fissura pelo universo físico, tocável, sensível. está no regalo ou na pressão dos olhos quando tudo à volta se cala, na apreensão em ouvir quando escuro ou na caça singela suave ao aroma quando este se apresenta - no distúrbio dístone e desritmado da voz jamais.
a preferência pela madrugada faz com que o sol nasça sempre mais rápido e puxe com ele todas as sinfonias brutas de um mundo moderno quebrado. não fosse a comunicação incapaz e incompleta dessa nossa raça deitaríamos toda noite numa cama fria sem ter, no dia, ouvido uma palavra sequer. que nessas formas corpóreas de expressão tudo que há é uma jaula onde o retiro epírito-mental é apenas mais um artifício de tortura e onde as camas são não mais que pequenos infernos dos quais não podemos escapar.
o silêncio, em vez delas. o tato, em vez delas. o olhar, em vez delas. a audição, em vez delas. pois as palavras são grávidas e ter sentido talvez seja responsabilidade demais para qualquer um que ouse gerá-lo. pois as palavras são avessas e eu sou apenas um pretenso prepotente sem ponderação que, na falta de audição e fala mais maduras, opta pelo não-dizer e se contenta.
meu processo tem nome.
ele se chama quiescência.

sábado, 1 de agosto de 2009

"ou sorrindo.", detalhe.

Além de continuar o que quer que eu esteja fazendo, agora é apertar os olhos, cruzar os dedos e abraçar os joelhos pra que hoje e ainda amanhã eu também esteja num lugar mais morno, apertado e aconchegante do que esse vasto e laminado quarto.

mais morno, apertado e aconchegante do que esse vasto e laminado quarto.

do que esse vasto e laminado quarto.

esse vasto e laminado quarto.

esse vasto e laminado quarto, mais vasto e mais laminado que uma planície em tundra, mais que o capim seco posto à prova por uma geada. qualquer nevasca é mais morna, apertada e aconchegante que esse vasto e laminado quarto.
nem quando entro o espaço ganha calor de vida, pois é como se tudo ali tivesse morrido há tempos e todo o recinto sido enterrado sob sete palmos de terra, pois luz nenhuma de sol nenhum parece bater às janelas para aquecer a inércia dali. fecha-se a porta e sobe um vento frio, deita-se na cama e ela te recepciona com um beijo gelado, independente de quantos edredons e cobertores deitam-se sobre você.
as paredes distanciam-se umas das outras, distanciam-se de quem lá dentro habita até deixá-lo só com seus próprios demônios; eis que o quarto é vasto, extenso até aonde a vista e o medo alcançarem, e sua grandeza inspira que o horizonte se torne ventania de folhas-lâminas de gelo seco em avanço feroz, voraz, punitivo.

cortam-se quaisquer pares neste vasto e laminado quarto.
neste lar só vive um.