Ontem finalmente as coisas chegaram num ponto de tamanho caos que assistir aulas saiu de cogitação. O sono (ou a falta dele), as coisas que precisava fazer, as questões nas quais (não deveria, mas) precisava pensar - o ponto de equilíbrio e de coesão que eu queria estabelecer; me fizeram tomar a rota de casa ao invés de sentar pra aula.
Cambaleei o caminho inteiro, escutando a mesma música e admitindo que o frio não era pela falta da blusa. Cheguei. Tapei o buraco dos dentes com alguma coisinha (o nó na garganta não deixava a comida passar, os solavancos no estômago não faziam boas promessas).
Minha sôfrega confusão me encarcerou no quarto para outras horas de quem sabe algumas surpresas. Me pediu um sorriso, como se pedisse um cigarro ou fizesse uma piada de humor inglês. Desfiz-me dos meus olhos de ressaca, pois não havia no meu mundo dente que não quisesse lá no ínfimo se exibir à rainha. E nervoso e incerto e sincero, ri de dentro, rodeado de coincidências intangíveis e das surpresas que ela quisesse.
Além de continuar o que quer que eu esteja fazendo, agora é apertar os olhos, cruzar os dedos e abraçar os joelhos pra que hoje e ainda amanhã eu também esteja num lugar mais morno, apertado e aconchegante do que esse vasto e laminado quarto.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Semi-presencial
Jurava que já havia passado da época de tomar bronca por conta dos horários, mas eram três da matina quando minha mãe, descabelada e madrugal, entrou no meu quarto. E eu não estava gritando; ou ouvindo música; ou rindo alto. Ou sorrindo. Ela deve ter acordado e ficado nervosa, deus sabe lá porque hoje; deus sabe lá porquê. Talvez hoje tenha sido um estopim.
Entrou, e eu, com meus recém-feitos dezoito anos; eu, sem aparente juízo na cabeça por passar outra madrugada em claro; eu, que se continuasse naquela condição, naquela situação deplorável (grifo meu) seria encaminhado a um médico; escutei.
Tá. Calmaí, que médico? Ela já tinha saído do quarto, voltou, talvez pra conferir se eu falava sério quando perguntei aquilo. Respondeu sem jeito. Psicólogo. Psiquiatra. Tá, eu consenti. Sem a certeza de que ela havia compreendido minha seriedade sobre, se ela me concederia a regalia de alguém pago para me escutar, foi dormir. Eu não fui.
Não por pirraça. Sem julgamentos, sei porque fiquei.
Dessa forma, se não passou o tempo das broncas, o da pirraça, ao menos, se foi. Mesmo assim, não retorna o sentimento de, pela primeira vez em tempos, estar fazendo a coisa certa. Não volta. O sono de novo é inútil (isso volta), o desânimo consome (isso volta), visto luto.
Sinceramente queria que chovesse hoje. Mas faz sol e o sol ressalta a desimportância dos dramas.
Entrou, e eu, com meus recém-feitos dezoito anos; eu, sem aparente juízo na cabeça por passar outra madrugada em claro; eu, que se continuasse naquela condição, naquela situação deplorável (grifo meu) seria encaminhado a um médico; escutei.
Tá. Calmaí, que médico? Ela já tinha saído do quarto, voltou, talvez pra conferir se eu falava sério quando perguntei aquilo. Respondeu sem jeito. Psicólogo. Psiquiatra. Tá, eu consenti. Sem a certeza de que ela havia compreendido minha seriedade sobre, se ela me concederia a regalia de alguém pago para me escutar, foi dormir. Eu não fui.
Não por pirraça. Sem julgamentos, sei porque fiquei.
Dessa forma, se não passou o tempo das broncas, o da pirraça, ao menos, se foi. Mesmo assim, não retorna o sentimento de, pela primeira vez em tempos, estar fazendo a coisa certa. Não volta. O sono de novo é inútil (isso volta), o desânimo consome (isso volta), visto luto.
Sinceramente queria que chovesse hoje. Mas faz sol e o sol ressalta a desimportância dos dramas.
epitaph:
bobagens
domingo, 19 de outubro de 2008
5:15
É noite, e você passa suas noites sentada à borda da cama com o rosto entre as mãos e a esperança esvaindo pelo carpete, gotejando a partir dos fios multicoloridos de cabelo cuja última propriedade pensável é "natural" mas cujo cheiro demorou a deixar minhas mãos. Sozinha por escolha própria, tendo renunciado às minhas algumas tentativas, à minha incontestável dedicação, é possível que a única coisa que passe pela sua cabeça seja o mesmo filme dos últimos meses: sem mudanças no roteiro, sem protagonistas novos - só o mesmo final infeliz, os mesmos e esporádicos figurantes sem feições, cem feições, e trinta maneiras diferentes de chupar alguém.
Há neste ponto quem questione a veracidade dessas coisas. Sou eu, eu questiono. Quem é você, afinal? Você pode enxergar um retrato bem feito nas minhas linhas, mas tudo que eu vejo são as linhas que são; rascunhos que são, esboços mal-feitos num processo interrompido e cheio de defeitos, pouca-vontade e má fé. Neste ponto, reitero, pouco importa quem você é: sou pois quem largou o lápis e deixou que a ponta se quebrasse em trinta; se possível, quem jogou a prancheta contra a parede e morreu sentado, atônito e agraciado pelos olhos de ressaca preguiçosos de mirar qualquer outro lado.
Há verdade em nada, porque haveria? Não houve verdade em minhas intenções, os fatos foram imaginados e assim minha desistência pode ser julgada como um plano para algo que nunca existiu. Em síntese, desconsiderar a tentativa, esquecer os fatos, desaperceber a desistência.
Se por um momento o mundo era claro em suas infinitas rachaduras; se há uma dúzia de horas eram vocês os desajustados e carentes de socorro, onde quer que estivessem se destruindo; é notório em tempo presente que o rascunho da caricatura, o único quebrado, o único caído e único por convenção, seria eu.
Há neste ponto quem questione a veracidade dessas coisas. Sou eu, eu questiono. Quem é você, afinal? Você pode enxergar um retrato bem feito nas minhas linhas, mas tudo que eu vejo são as linhas que são; rascunhos que são, esboços mal-feitos num processo interrompido e cheio de defeitos, pouca-vontade e má fé. Neste ponto, reitero, pouco importa quem você é: sou pois quem largou o lápis e deixou que a ponta se quebrasse em trinta; se possível, quem jogou a prancheta contra a parede e morreu sentado, atônito e agraciado pelos olhos de ressaca preguiçosos de mirar qualquer outro lado.
Há verdade em nada, porque haveria? Não houve verdade em minhas intenções, os fatos foram imaginados e assim minha desistência pode ser julgada como um plano para algo que nunca existiu. Em síntese, desconsiderar a tentativa, esquecer os fatos, desaperceber a desistência.
Se por um momento o mundo era claro em suas infinitas rachaduras; se há uma dúzia de horas eram vocês os desajustados e carentes de socorro, onde quer que estivessem se destruindo; é notório em tempo presente que o rascunho da caricatura, o único quebrado, o único caído e único por convenção, seria eu.
epitaph:
crônicas
Assinar:
Postagens (Atom)